
Obra de R$ 176 milhões e implosão levanta dúvidas sobre manutenção do DNIT
Ponte de 66 anos já havia apresentado problemas estruturais em 2004 e 2016. Empresas contratadas para a reconstrução são as mesmas que fizeram a nova ponte entre Maranhão e Tocantins.
O Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) vai implodir, no próximo domingo (1º de novembro), a antiga Ponte Marcelino Machado, sobre o Estreito dos Mosquitos, na BR-135, principal acesso rodoviário a capital maranhense, São Luís (MA). A operação provocará interdição total da rodovia das 10h às 16h, nos dois sentidos.
Segundo o DNIT, os bloqueios ocorrerão no km 40, em Bacabeira, para quem segue em direção à capital maranhense, e no km 22, para quem sai de São Luís. A operação será coordenada pela Defesa Civil municipal.
Ponte já apresentava problemas há mais de 20 anos
Construída em 1960, a ponte sofreu danos graves em 2004, quando precisou passar por intervenções estruturais. Em 2016, novas inspeções identificaram problemas e alertaram para riscos à segurança.
Apesar dos reparos realizados ao longo dos anos, a situação voltou a se agravar. Em abril de 2026, o DNIT interditou a estrutura.
Segundo o Ministério dos Transportes, as inspeções identificaram corrosão, fissuras acentuadas, oxidação das armaduras, deslocamento de bloco de concreto e perda de rigidez estrutural. Diante desse quadro, o governo decidiu demolir a ponte e construir outra.
Manutenção poderia ter evitado a demolição?
O histórico da ponte levanta questionamentos sobre a eficiência da manutenção realizada pelo DNIT. Afinal, depois dos problemas registrados em 2004 e dos novos alertas em 2016, não seria possível prolongar a vida útil da estrutura com intervenções preventivas e reforços adequados?
Embora o envelhecimento e as limitações do projeto original possam justificar a substituição, somente a análise dos laudos técnicos e do histórico de manutenção permitiria determinar se a demolição poderia ter sido evitada.
O DNIT sustenta que a ponte, projetada para padrões de carregamento da década de 1960, já havia cumprido sua vida útil de projeto. O que é possível, principalmente porque não existe de fato controle de peso nas rodovias e a tolerância para sobrepeso aumentou para atender os interesses dos embarcadores e transportadores.
Mesmas construtoras da ponte que desabou entre Maranhão e Tocantins
A reconstrução da Ponte Marcelino Machado foi contratada emergencialmente por R$ 176,7 milhões, com previsão de conclusão em 2027, mas sem data específica.
O serviço será executado pelo Consórcio Ponte Estreito Maranhão, formado pela Construtora A. Gaspar S/A e pela Arteleste Construções Ltda.
São as mesmas empresas contratadas pelo DNIT, também emergencialmente, para reconstruir a Ponte Juscelino Kubitschek, na BR-226, entre Maranhão e Tocantins, que desabou em dezembro de 2024, provocando 17 mortes.
Em janeiro de 2025, o Estradas.com.br revelou que ambas haviam sido desclassificadas de uma licitação para construir a Ponte de Guaratuba, no Paraná, em 2022, por não atenderem às exigências de qualificação técnica daquele certame.
Na ocasião, o DNIT informou ao Estradas que a contratação emergencial para a BR-226 havia seguido os procedimentos legais e que as empresas atenderam aos requisitos exigidos para aquela obra.
Leia a reportagem: Empresas contratadas para construírem nova ponte na BR-226 foram desqualificadas em licitação no PR.
Em fevereiro de 2026 a Controladoria Geral da União(CGU) encontrou indícios de sobrepreço milionário na reconstrução da ponte JK, entre Aguiarnópolis (TO) e Estreito (MA).
Em setembro deste ano o Ministério Público Federal, em parecer do Relator ALEXANDRE CAMANHO DE ASSIS determinou o arquivamento do caso.
PROCESSO: IC – 1.36.001.000006/2025-25 – Eletrônico
ASSUNTO: Promoção de arquivamento. Inquérito civil. Supostas irregularidades na obra de reconstrução da ponte que liga os Estados de Tocantins e Maranhão. Contratação do Consórcio Ponte do Estreito. Constatações de impropriedades apontadas nas auditorias da CGU e TCU. Conclusão convergente: não demonstração de superfaturamento global materializado ou prejuízo ao erário.
Compatibilidade entre a complexidade da obra emergencial e as tabelas referenciais de custos de engenharia (SICRO/SINAPI). Não comprovação de crime ou improbidade administrativa. Homologação.
SESSÃO: 25ª Sessão Revisão-ordinária – 17.9.2026
Relator(a): ALEXANDRE CAMANHO DE ASSIS
Membro: ANDRE DE CARVALHO RAMOS
Membro: JOSE AUGUSTO TORRES POTIGUAR
DELIBERAÇÃO: Em sessão realizada nesta data, o colegiado, à unanimidade, deliberou pela
homologação do arquivamento, nos termos do voto do(a) relator(a).
Brasília, 17 de setembro de 2026.
ALEXANDRE CAMANHO DE ASSIS
Somados, os dois contratos de reconstrução representam aproximadamente R$ 348,7 milhões em recursos públicos.
Tráfego continuará pela ponte paralela
Após a implosão, os veículos continuarão utilizando a segunda ponte do complexo, que opera em mão dupla desde a interdição da estrutura antiga. O DNIT informa que a ponte em funcionamento recebeu melhorias e permanece sob monitoramento.
Os motoristas devem programar suas viagens para evitar o horário de interdição e acompanhar eventuais mudanças pelos canais oficiais do DNIT e da Polícia Rodoviária Federal.




