
Prestes a completar 20 anos de atraso, obras do empreendimento vislumbram o fim da novela que envolve crimes de corrupção ativa e passiva, além de lavagem de dinheiro, ao longo de vários governos paulistas
O que parecia ser uma novela está mais para uma série. As obras de construção do Rodoanel Metropolitano de São Paulo, batizado como Rodoanel Mário Covas (SP-021), previstas para serem finalizadas em 2006, completam 19 anos e ainda não foram tem chão pela frente.
Desta vez, será liberado ao tráfego, nesta terça-feira (23), o primeiro trecho do Rodoanel, trecho Norte, que inclui 24 quilômetros, de um total de 44 quilômetros. Trata-se do último trecho a ser construído. Ele interligará o grande anel viário que circunda a capital paulista. A promessa – outra, entre dezenas já anunciadas – é de entregar a segunda parte do trecho Norte, no segundo semestre de 2026.
De acordo com o projeto, este trecho a ser entregue nesta terça (23), vai do km 129 ao 153, e ligará as rodovias Fernão Dias (BR-381) e Via Dutra (BR-116), com conexão ao trecho Leste do próprio Rodoanel, na altura da Ayrton Senna da Silva (SP-070).
Pedágio free flow
Segundo a concessionária responsável pelo trecho Norte, a parte a ser entregue contará com dois pórticos de pedágio free flow – um em cada sentido, localizados nos km 135+120, sentido externo/Fernão Dias, e 135+140, sentido interno/Dutra, em Guarulhos (SP).
Os valores das tarifas foram publicados pela Agência de Transporte do Estado de São Paulo (Artesp) por meio da Deliberação 1.044/25 no Diário Oficial do Estado, no último dia 19 (sexta-feira).
Os preços variam de acordo com a categoria do veículo. A tarifa cheia mais alta será de R$ 27,74, para caminhões e ônibus de grande porte. Para veículos leves, a tarifa cheia será de R$4,62. Usuários que utilizam tags de pagamento automático terão desconto de 5% e pagarão R$ 4,38.
Novela
“Rodoanel, um dia você vai andar nele“. A frase pode soar estranho, mas faz todo sentido quando se analisa o histórico, a evolução das obras do megaprojeto do governo estadual. Afinal, tudo começou no início dos anos 1990, mais precisamente em 1991, e até hoje, 32 anos depois, ainda não foi concluído.
Em janeiro de 2019, próximo de completar 30 anos de obras, o Rodoanel Mário Covas sofreu nova paralisação nos lotes 1, 2 e 3. Na ocasião, por iniciativa da Dersa Desenvolvimento Rodoviário S.A., informou por meio de um comunicado no dia 2/1/2019:
“A DERSA – Desenvolvimento Rodoviário S/A informa que, diante da incapacidade das empresas para a continuidade das obras dos lotes 1, 2 e 3 do Rodoanel Norte, decidiu rescindir os respectivos contratos, conforme publicação no Diário Oficial do Estado em 14/12/2018. A Companhia prepara novo processo licitatório para dar sequência a esses três lotes do empreendimento.”
Naquela ocasião, a Dersa informou que as obras dos lotes 4, 5 e 6 continuariam em andamento com os seguintes percentuais de execução: Lote 4: 95%, Lote 5: 97% e Lote 6: 71%.
Já em agosto de 2022, o governo paulista publicou o novo edital de licitação para concessão do trecho norte do Rodoanel. Após a concessão, as obras que estão paradas desde 2018, devem ser retomadas.
O investimento previsto é de R$ 3,4 bilhões, dos quais R$ 2 bilhões destinados à conclusão da obra. Além de finalizar o trecho norte, será destinado mais R$ 1,8 bilhão a operação e manutenção do trecho durante todo o período do contrato. A concessão terá validade de 31 anos.
Previsto inicialmente para o mês de abril de 2022, o leilão do Trecho Norte do Rodoanel foi adido pelo próprio governo do estado devido às incertezas geradas pelo cenário macroeconômico interno e externo e alta de preços de insumos, responsáveis pela maior inflação da construção civil das últimas duas décadas no Brasil.
Um estudo do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), contratado pelo governo de São Paulo, encontrou, em fevereiro de 2020, quase 1.300 as falhas no projeto e na estrutura da construção. Pelo estudo, 59 pontos são considerados grandes falhas construtivas, como erosão em terrenos e estruturas, colunas desalinhadas e infiltrações.

Começa-para
As histórias de ‘começa e para’ somam dezenas. A primeira parte, o trecho Oeste, foi inaugurado em outubro de 2002. O trecho tem 32 quilômetros de extensão, entre Av. Raimundo Pereira de Magalhães (SP-332, estrada velha de Campinas), em São Paulo, e término na rodovia Régis Bittencourt (BR-116), no município de Embu (SP).
De lá para cá, muitos inícios e paralisações nas obras dos trechos Leste e Sul, que foram entregues com atrasos. O Sul foi liberado em outubro de 2010, mas, na época, ainda faltavam detalhes para a conclusão total; já o trecho Leste foi finalizado totalmente, em junho de 2015.
Parece que o slogan do Rodoanel Norte “Referência de agilidade, inovação e pioneirismo” não faz muito sentido. Já o do início da matéria: “Rodoanel, um dia você vai andar nele”, tem tudo a ver.
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