Sara Lima, uma das vítimas do acidente ocorrido da última quinta-feira (22), na rodovia ES-181, na serra do distrito de Anutiba, entre Muniz Freire e Alegre, gravou um vídeo para tranquilizar amigos e parentes.

“Gente, estou bem, obrigada pelas orações. Não precisam se preocupar”, diz a estudante. O vídeo foi gravado pelo pastor da Assembleia de Deus de Muniz Freire e compartilhado nas redes sociais.

A cidade de Muniz Freire amanheceu, nesta sexta-feira (23), em luto e abalada com o trágico acidente com o ônibus que transportava 27 universitários para faculdades no município de Alegre. O clima na cidade era de tristeza pelas mortes de Thereza Fausta da Silva Neta, de 20 anos, e Joilma Couto Carneiro Cazzador, 40 anos, e pelos estudantes que ficaram feridos.

Thereza (esq.) era formanda de História e Joilma cursava o 6º período de psicologia

Thereza foi velada na casa de um vizinho, localizada no bairro São Vicente. O corpo chegou no local por volta das 14h30. Centenas de pessoas foram prestar as últimas homenagens à estudante.

Em frente fica a casa da vizinha de Thereza, a dona de casa Lúcia Rosa da Silva Rodrigues lamentou a partida precoce da jovem de 20 anos. “Conhecia ela desde os quatro anos. Cresceu aqui na rua e convivia com meu filhos. Chorei muito. Muito triste ver uma menina estudiosa e trabalhadora partir cedo assim”, disse.

Um cortejo saiu às 17 horas para a comunidade de Amorim, zona rural de Muniz Frei, onde ocorreu o sepultamento.

Joilma foi velada na Igreja Batista de Muniz Freire e foi sepultada na manhã de hoje (24) pela manhã, no cemitério municipal de Muniz Freire.

Foto: Edézio Peterle

Pelo fato de Muniz Freire ser uma cidade pequena, a maioria das pessoas se conhecem ou são vizinhas. O sentimento é de tristeza pela fatalidade de ver que o sonho das universitárias de se formarem foi interrompido.

Thereza era aluna do curso de História da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Alegre (Fafia) e se formaria no próximo mês. Joilma cursava o 6º período de Psicologia.

Amigos lamentam

O advogado Rodrigo Pope é morador de Muniz Freire, conhece familiares de Joilma e mora próximo à residência de Thereza. Ele disse que a tragédia abalou a todos. “A cidade está em choque. O acidente vitimou universitários que buscavam a realização de um sonho, para duas dessas universitárias e seus familiares, um sonho interrompido há poucos dias da formatura por uma tragédia que, por certo, marcará negativamente a história da nossa cidade”.

Rodrigo lembrou que o trajeto Muniz Freire – Alegre é rota de grande parte dos jovens da cidade que buscam formação superior. “O acidente não feriu somente os que estavam no ônibus, feriu a cidade, cada um de nós munizfreirenses! A maioria de nós jovens que tivemos a felicidade de concluir o ensino superior o fizemos enfrentando diariamente aquela mesma estrada, alguns até Alegre, outros, como eu, até Cachoeiro.

O acidente ocorrido na noite de quinta-feira (22), na rodovia Es-1818, na Serra do Distrito de Anutiba, entre Muniz Freire e Alegre, que deixou duas universitárias mortas e dezenas de feridos, poderia ter sido evitado. (veja fotos no final da matéria)

Após consulta ao Detran/ES, foi verificado que tanto o motorista, José Roberto Pinheiro, de 53 anos, quanto o veículo não têm autorização para efetuar este tipo de transporte. No local do acidente, foi possível constatar as péssimas condições nas quais se encontrava o ônibus. Pneus carecas, muitos fios soltos e peças amarradas.

O veículo estava em situação precária e não estava regularizado junto ao Detran para este tipo de transporte. O licenciamento, que soma R$ 341,54, também estava vencido.

De acordo com a Agência Nacional de transportes Terrestres (ANTT) a fiscalização desse tipo de transporte entre municípios do mesmo estado é de responsabilidade do estado e municípios.

Alguns estudantes de biologia que estudavam com as vítimas informaram que os colegas já haviam reclamado que o ônibus não tinha freio. “As meninas reclamavam todo dia que o ônibus não tinha freio e quem arrumava era o motorista. Ontem mesmo, elas estavam reclamando do ônibus”, disseram as estudantes.

Problemas desde julho

Desde o mês de julho, os alunos universitários de Muniz Freire precisam arcar com as despesas integral da locação do ônibus para fazer o transporte até as faculdade no município do Alegre. Desde então, há relatos de problemas no veículo.

André Saloto é aluno do último ano de Psicologia da Fafia de Alegre. Ele não embarcou na tarde de ontem (22) e ficou abalado com a tragédia ocorrida com seus colegas. “Era uma 18h15, um amigo me ligou preocupado. Meu telefone não parou até às 22 horas, as pessoas querendo saber se eu estava bem. Essa noite foi bem difícil, mal consegui dormir, imaginando toda hora que eu poderia estar ali no ônibus. Nessa situação, a gente não sabe nem o que faria, não há nada o que fazer”, conta.

“Essa noite foi bem difícil, mal consegui dormir, imaginando toda hora que eu poderia estar ali no ônibus”, relata o universitário André

O estudante faz essa mesma rota há cinco anos, todos os dias para chegar até a faculdade. Segundo ele, depois que o transporte da prefeitura se encerrou, a situação piorou. “Tem cinco anos que utilizo o transporte universitário. Nos primeiros anos era a prefeitura que disponibilizava todo o transporte. De uns dois anos para cá, começamos a dar uma ajuda em dinheiro para pagar o transporte. Mas nesse semestre, a prefeitura teve que retirar o transporte e tivemos que alugar esse ônibus particular”, detalha André.

Ainda segundo os estudante as condições do atual transporte nunca foram boas. “Esse ônibus de agora começou a dar problema desde sempre. Não tem dois meses que estourou o pneu antes de chegar em Alegre. Nesse dia eu também não fui. Estourou o pneu e afundou a parte de baixo, e quase quebrou o pé de um menino”, acrescenta.

O estudante salienta que a rotina de estudos é muito cansativa para todos que utilizam desse transporte e que agora o sentimento é de tristeza pela morte das colegas. “É uma sensação de tristeza de imaginar que eu poderia estar ali. Cinco anos lutando por um sonho e sendo interrompido assim sem direito de escolha”, finaliza.

Prefeitura

Sobre a situação do transporte universitário em Muniz Freire, a Prefeitura Municipal informou por meio de nota que, segundo a Legislação, não cabe ao município arcar com o transporte universitário. “Apesar de não ser de responsabilidade do município, mesmo assim, procuramos manter diálogo com os universitários e deixamos claro a eles que o município não poderia arcar com todos os custos, como na época das vacas gordas. Deixamos claro a eles que mesmo assim o município daria uma parcela de contribuição. Fizemos várias reuniões com eles. Foi-lhes pedido que organizassem uma associação para darmos respaldo legal à ajuda. Durou por alguns tempos. A parceria enfraqueceu porque a diretoria renunciou. Por último um universitário e um vereador do município se prontificaram a presidir a associação e terminamos o diálogo com a promessa de que ele traria a documentação e todos os levantamentos para formalização da parceria.  Isto já faz mais de 08 meses. Estamos aguardando”, diz a nota da prefeitura.

O motorista

José Roberto Pinheiro não permaneceu no local após o acidente. De acordo com informações da Polícia Militar, sua esposa, Neuza Maria da Motta, disse que o marido havia se ausentado por ter machucado a mão.

Ela conta que estava com o marido na hora do acidente e que José Roberto teria se assustado por ter perdido o freio. Segundo Neuza Maria, o marido tombou o ônibus propositalmente na tentativa de impedir a queda em uma ribanceira.

Ainda na noite de quinta-feira, o motorista se apresentou à delegacia de Alegre e confirmou as informações da esposa. Ele foi submetido ao teste do bafômetro e nada foi detectado.

Os advogados que representam a empresa JR TUR e José Roberto Pinheiro, ao contrário do divulgado pela PM, disseram que José Roberto Pinheiro procedeu todo o socorro necessário às vítimas e que permaneceu no local até a chegada do socorro especializado, sendo as duas ambulâncias do município de Muniz Freire, e logo após se deslocou até a UPJ de Alegre para se apresentar às autoridades competentes.

Segundo os advogados “ as informações prestadas pela Polícia Militar ocorreram em razão da demora para chegar ao local, pois a primeira viatura a atender a ocorrência foi do município de Alegre, que chegou ao local aproximadamente 30 minutos após o acidente, segundo populares”.

Sobre a documentação do ônibus, afirmaram que a empresa encontra-se regular, não sendo necessário preencher os requisitos legais exigidos para o transporte escolar, pois o tipo de transporte executado neste caso, não se obriga a vinculação legal da definição de transporte escolar. “A contratação para o transporte realizado, refere-se à contratação privada, promovida por pessoas maiores e capazes, que se deslocam às universidades da cidade de Alegre, no período noturno, não havendo qualquer vínculo com o ente público.

Quanto à manutenção do veículo, o mesmo era submetido a revisões periódicas junto à oficinas no município de Cachoeiro de Itapemirim, conforme documentos que estão sendo entregues à autoridade policial competente.

Por fim, esclarece que todos os envolvidos estão com grande pesar acerca dos fatos, tendo em vista que todos os passageiros são pessoas próximas e queridas ao Sr. José Roberto, o que lhe causa ainda mais tristeza e angústia, estando o mesmo colaborando integralmente com as autoridades competentes”, diz a nota assinada pelos advogados Elaine Gonçalves Sobreira e Vinicius Pavesi Lopes. *Contribuiram na matéria: Edézio Peterle e Ana Glaucia Chuina

Fonte: www.aquinoticias.com

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